Fé & Superstição


Se forjou um mito sobre o acreditar, como se os tolos e infantis que declaram, “eu acredito”, fossem superiores àqueles que questionam – esses crédulos seriam os “predestinados” – os escolhidos supostamente pela divindade em detrimento de todos os outros.
O homem é, por si só um verdadeiro milagre, ele é, ou deveria se tornar, a ponte entre dois mundos – o mundo material e o psíquico. Ele foi dotado de sentidos capazes de perceber o mundo e de uma mente lógica capaz de fazer relações simples e se dar conta das leis que governam a natureza.
Nesse instante, ele já está no mundo sutil, invisível, intangível. Sua capacidade verbal e as relações internas, mais além de seus sentidos físicos, os quais compartilha com outros seres vivos, o leva para o interior e acima.
Qual seria o lugar ocupado pela crença, pela superstição, também chamada simploriamente, de fé? Parece ser uma forma de escapismo, porque a condição natural de fazer relações internas e compreender, é infinita. É notável que, no momento em que uma pessoa começa a “crer”, ela está negligenciando seu potencial de compreender – ela não pode continuar a compreender se passa a apenas crer. Esse acreditar, essa “fé” significa algo sobrenatural e, portanto, além das leis naturais. Como poderia haver algo além das leis naturais, no sentido de nega-las? Quando alguém faz isso ela está rejeitando e negando fatos e a relação natural entre eles.
Entretanto, o mundo invisível, interior, não pode ser negado. Nossa psiquê, nossas funções psíquicas, são constituídas de capacidades e elementos além dos sentidos, mas os sentidos não podem corroborar o mundo superior.
Parece que nosso trabalho é ligar esses mundos: o visível com o invisível, o material com o espiritual. De toda a maneira, esse acreditar, no sentido da crença no sobrenatural, como se fosse possível a anulação da lei da causa e efeito no mundo material, é alienante, paralisante.
As mesmas leis se manifestam diferentemente nas coisas ao alcance dos sentidos e no mundo psíquico. É desnecessário e prejudicial à compreensão tentar conceber a manifestação do invisível no mundo material no sentido de anular as leis naturais. Isto é um caminho para a insanidade, para a superstição e a crença estúpida.
É inegável que o meio e suporte que nos foi legado, como humanos, para compreender, tem a ver com as nossas funções naturais. Nenhum milagre, no sentido de anulação das leis naturais seria possível, com o risco real da destruição de toda a natureza, daquelas coisas ao alcance dos sentidos e das relações naturais entre elas. Nenhum progresso interior é possível ao imaginar a anulação das leis naturais pela manifestação do mundo invisível e causal na matéria.
Iludir-se ao imaginar dizendo, “eu acredito”, e com isso anular os efeitos de certas causas, é absolutamente estúpido e supersticioso. Nenhum verdadeiro progresso e compreensão superior é possível ao descartar os poderes e funções psíquicas por uma crença qualquer.
Até onde podemos chegar é inimaginável porém, ainda possível. Dizer que o mundo das causas, que está além dos sentidos não existe, é também uma outra crença estúpida que afirma, “se não vejo e não concebo, então não existe”. A atitude positiva é confessar que não compreende e assim, não concebe e não vê com sua razão limitada.
É inegável e óbvio que há muito mais além do que alcançamos com os nossos sentidos e entendimento natural. O que não ajuda e é um obstáculo é achar que seria possível anular as leis de causa e efeito por acreditar que isso ocorreria através da manifestação do mundo invisível superior, para aqueles que estão limitados por funções ainda não desenvolvidas. Ou seja, não basta acreditar e isso é, de fato, um impedimento real a verdadeira evolução possível.
A doutrina pseudo-religiosa que prega e implanta essa ideia nefasta na mente frágil e infantil das pessoas as impede de evoluir e, certamente, isso não é inadvertido, mas intencional e malicioso. Aqueles que, finalmente, por todos os meios, pregam a crença no sobrenatural o fazem para impedir a evolução interior e assim, não permitem que cada pessoa possa caminhar para a compreensão e os poderes que abriga, ainda não desenvolvidos.
Ora, ninguém pode mostrar e compartilhar sua compreensão e seus poderes interiores, mas pode ensinar aos outros o caminho, para que cada um, que assim deseje, também os desenvolva.

Pode-se compartilhar riquezas, alimentos, as mesmas coisas vistas e ouvidas por todos, mas não seu significado e compreensão – isso é pessoal. Exatamente como há vários níveis de compreensão, também há vários níveis de ser, ou seja, de pessoas e isso as faz verem e entenderem a vida de maneira muito diferente e, ainda, estar dotadas de poderes maiores ou menores. E é este o motivo pelo qual não há e não pode haver jamais um mesmo processo de salvação ou redenção – o que leva a impossibilidade de um salvador, que através de um ato mágico, possa salvar a todos, igualmente.
Para que se possa progredir para a evolução toda a ilusão, imaginação e crença supersticiosa, precisa ser arrancada com suas raízes. Somos indivíduos e isso nos obriga a um caminho pessoal, a compreender por nós mesmos. Ninguém pode fazer por nós aquilo que só nós podemos e devemos fazer, para evoluir. Nenhum salvador, curador, cientista, profeta, nos exime ou resolve o nosso problema, o qual é eternamente, pessoal. A fé, a crença implica acreditar em lendas, em doutrinas prontas e que, de alguma maneira, pressupõem feitos e capacidades de outros e não as próprias. Essas coisas são inúteis e obstáculos terríveis.
Aceitar as regras, as leis e a natureza tal como nos é apresentada é o inicio do caminho verdadeiro. Imaginar e sonhar com soluções sobrenaturais é, por outro lado, escapismo e atraso, quando não loucura e alienação.
Confiar que é possível compreender, partindo das leis naturais e sabendo que não estamos limitados aos sentidos e a mente lógica, evitando crer em lendas, magia e o sobrenatural, é o inicio de um caminho lícito.

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