Materialismo Científico – O Dogma Central

A humanidade está marcada por soluções ansiosas, prematuras, milagrosas e violentas. Essa civilização, assim chamada “cristã ocidental” não foge à regra. A história humana escrita é um relato repetitivo de crimes, de derrotados e vencedores, de heróis e salvadores, de descobrimentos, de esperanças e superstição.

Não é muito inusitado que se diga que partir de um conceito falso, de meias verdades, não se vai muito longe e que o fracasso e o desastre está logo ali no primeiro cruzamento.

Que base inadequada é essa que compromete toda uma civilização? Num determinado momento da história ocidental houve uma mudança substancial na concepção fundamental da realidade. O que chamamos com a “boca cheia” de ciência, se apoia na crença que a verdade está exclusivamente fora de nós, ou seja, na matéria, naquilo que podemos perceber pelos sentidos e se voltou para a quantificação de tudo. O Homem, antes central, tornou-se mais um dos acidentes da natureza e tudo passou a ser olhado como produto da matéria inanimada e suas relações.

Isso levou a busca para a quantificação de tudo, a análise da matéria ao átomo e ainda seus componentes menores, na esperança que os mistérios do universo fossem ser revelados. Nesse novo mundo o Homem desaparece em meio ao muito grande das galáxias e ao muito pequeno do átomo.

Entretanto, permanece o fato de que as qualidades humanas não podem ser quantificadas. Nenhuma ciência pode quantificar aquilo que é qualidade e invisível – inacessível aos sentidos. Todo o esforço da cultura, sociedade, se voltou, cada vez mais, para o externo e o Homem se encontrou relegado e o mental, o interno, ficou quase restrito ao interesse de certos grupos vistos como estranhos, “esotéricos”. A visão do Homem e a natureza como pertencentes a um todo interconectado e interdependente no qual o Homem era o centro, começou a sofrer uma mudança no século XVII, com Galileu. O Homem como um microcosmo dentro de um macrocosmo certamente pertence, entre outros, a uma visão platônica e aristotélica. A nova visão de mundo escolheu quantificar tudo e tentar dominar a natureza. Assim, passaram a ver o mundo real somente naquilo que estava fora, acessível aos sentidos. Logo a explicação do todo mostrou-se impossível e complicada. Quando se parte do visível, do material, o Homem tende a desaparecer, já que o Homem verdadeiro é invisível – seu psiquismo, e não pode ser quantificado e separado em partes, órgaos e moléculas e continuar sendo um homem.

Assim como sob o telescópio, também sob o microscópio, o Homem desaparece.

Toda a abordagem materialista se ocupa do uso de análise (das partes), da matéria, tudo acontecendo no tempo, portanto, no passado. Para exemplificar, uma cadeira pode ser analisada em sua constituição da madeira que a compõe, até seus menores átomos, excluindo a mente que a concebeu. Para a ciência, a causa são as partes de madeira que a compõe; no invisível (dentro do homem), a cadeira é, antes de tudo, uma ideia que existiu na mente de alguém – a verdadeira causa primária. Portanto, temos: a ideia, a cadeira e a madeira. O materialismo científico enfatiza a madeira como causa e objeto de estudo. É claro que, por mais que estude as partes e sua composição, jamais chegará a ideia que levou a concepção da cadeira. E isso se repete com tudo na vida, no universo e no homem. Nada do que levou a ideia, aquilo que se passa no invisível, se encontra no mundo material ou visível. As doutrinas e as mais bizarras e violentas ações humanas se apoiam nessa visão parcial do mundo – por exemplo, a “teoria da evolução” e o marxismo. Portanto, a causa do mundo e de tudo, para o materialismo científico é a matéria e seus componentes microscópicos e/macroscópicos, ou seja, as quantidades em detrimento das qualidades, do significado e da ideia. Para o materialismo, ou seja, a ciência, o mundo é algo morto, mecânico e decadente (morrendo)– e deve-se acrescentar, algo sem uma razão de ser, absolutamente casual e acidental. A vida sendo, também, um desses acidentes! Para essa visão do mundo, se alguem quer melhorar, então ele deve se ocupar do mundo externo, visível e dominar a natureza e tudo o mais. Assim, o mundo causal, invisível, foi abandonado, rejeitado e agora, está esquecido. A mente, o mundo interior e íntimo é visto como um produto do sistema nervoso, de reações químicas e apenas para ser usado na sobrevivência, no gozo e no domínio da natureza – ou seja, servir como uma máquina, ao nível de um processador digital.

A filosofia materialista, imagina que o superior vem do inferior (evolução) e assim, que não há nada acima das conquistas e do conhecimento humano. É interessante fazer um exercício sobre as consequências dessa crença na psicologia pessoal e no comportamento social. O princípio da consciência moral é reconhecer que há algo maior, melhor e superior e que não viemos do inferior, não somos produto do acaso. Portanto, o materialismo científico elimina toda a ideia, na prática, de que o superior crie o inferior, que o mundo é o produto da Mente Superior, mesmo que saiba que a cadeira é criação da mente humana e que, da mesma forma, nós e todo o resto também fomos de alguma maneira, pensados e não um produto de um acidente e um amontoado de materia.

Finalmente, quem é educado sob essa doutrina sofre uma distorção profunda na sua capacidade intelectual e moral. Não importa se as pessoas são religiosas ou não, o que construirá sua compreensão do mundo serão essas ideias repetidas por várias décadas e em todos os níveis.

Na verdade, finalmente, as pessoas não têm seus comportamentos modelados pela religião, ideologia, ideias políticas, mas são todos, na raiz de suas crenças, materialistas cujo dogma central é a ciência. Ou seja, desde os dois últimos séculos essa doutrina materialista não está mais somente entre os cientistas, mas se disseminou entre o povo – é o novo e poderoso dogma.

A humanidade compartilha hoje com os materialistas profissionais a crença de que a solução para os seus problemas se encontra fora de si mesma. A consequência imediata disso é que todos devem ter as mesmas ideias, que são semeadas desde fora por aqueles que desejam o controle e o domínio das massas. O preço é a perda do sentido interno da existência, das diferenças individuais, a normatização de costumes e culturas. O mundo caminha assim para se tornar uma aldeia, por eliminar as diferenças. Tudo é imitado, copiado, compartilhado, e o que é genuíno e pessoal tende a desaparecer. Sem se dar conta, cada  vez mais fica fácil reunir as pessoas em massas uniformes e amorfas que respondem a um determinado estímulo pragmático. Na medida que o poder de transformação, de fazer, de determinar a direção da vida desaparece dos indivíduos, sua mente se atrofia, os significados e ideias minguam.

Ao mesmo tempo, o povo espera que a ciência descobrirá as soluções, os segredos do universo e que tudo irá bem para todos. Tudo isso se passa na ignorância de que cada pessoa é um novo ponto de partida, um recomeço e que deve, pessoalmente, descobrir por ela própria, o que já foi descoberto antes – é ela que precisa encontrar a verdade e que ninguém e nada podem substitui-la nessa tarefa de vida.

Ao limitar a sua vida exclusivamente ao conhecimento científico, mesmo que sonhe ser um espiritualista, o Homem se faz refém de todas as suas máquinas e sistemas. A total desproporção entre as funções humanas e a tecnologia é um real inibidor da busca da sabedoria e do poder interior. De fato, o desenvolvimento das máquinas não só não correspondem à evolução humana, como são um fator determinante para a sua involução – estupidificação.

A esperança de que haveria mais liberdade, paz e harmonia através de toda a parafernália de criações e descobertas humanas, é frustrante. Há menos liberdade, complicações, ansiedade, desassossego, uma visível redução da inteligência e, a obtenção dos recursos necessários à vida estão muito mais difíceis. A lógica mental apoiada na análise que mira somente o inferior e o externo como merecedor de interesse não acrescenta a compreensão.

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