Luigi Cornaro – A Influência Essênia

O CÉU NA TERRA E A ETERNIDADE:  A INFLUÊNCIA ESSÊNIA

        “Com a idade de noventa e um, estou mais forte e vigoroso que nunca, para o grande espanto daqueles que me conhecem. Eu, que posso relatar isso, estou fadado a mostrar que um homem pode gozar de um paraíso terrestre depois dos oitenta; porém não há de ser alcançado, se não houver estrita temperança na comida e bebida, virtudes aceitáveis para Deus e os amigos da razão.  Durante estes últimos dias fui visitado por muitos médicos estudiosos desta universidade, bem como por médicos e filósofos que estavam bem cientes da minha idade, vida e costumes, e também que eu era forte, vigoroso e ativo, meus sentidos perfeitos, também minha voz e dentes, igualmente minha memória e julgamento. Sabiam, além disso, que eu ocupava constantemente oito horas a cada dia, escrevendo tratados de próprio punho, sobre assuntos úteis para a humanidade, e passava muitas horas caminhando e cantando”.

        “Esses médicos e filósofos me contaram que era algo próximo a um milagre, que na minha idade eu conseguisse escrever sobre assuntos que requeriam bom julgamento e espírito, e acrescentaram que eu não deveria ser visto como uma pessoa de idade avançada, já que todas minhas ocupações eram as de um homem jovem, e que eu era no geral diferente das pessoas idosas de setenta e oitenta, que estão sujeitas a vários achaques e moléstias, que tornam a vida uma canseira; ou, se por acaso escapam de qualquer uma dessas coisas, contudo seus sentidos são afetados, a visão, ou audição, ou memória ficam defeituosas, e todas suas faculdades muito decaídas; não são fortes, nem alegres, como eu sou. E além do mais eles disseram, que me viam como tendo recebido especial graça, e falaram muitas coisas eloqüentes e bonitas, tentando provar isso, que contudo não conseguiram fazer;  pois os argumentos deles não eram baseados em razões boas e suficientes, mas meramente na opinião deles.  Portanto procurei tirar o engano deles e corrigi-los, e convence-los de que a felicidade que eu desfrutava não estava confinada a mim, mas poderia ser comum a toda humanidade, já que eu era um mero mortal, e não diferia em nenhum aspecto dos outros homens, exceto nisso, de que tinha nascido mais fraco que alguns, e que não possuía o que se poderia chamar de constituição forte.  O homem, entretanto, nos seus dias de juventude, está mais sujeito a ser guiado pela sensualidade do que pela razão; no entanto, quando ele chega à idade de quarenta, ou mais cedo, ele deve lembrar que chegou mais ou menos ao cume da colina, e agora deve pensar em descer, carregando o peso dos anos consigo; e que a velhice é o reverso da juventude, tanto quanto a ordem é o reverso da desordem; logo, é um requisito que ele deva alterar seu modo de vida, com relação à quantidade e qualidade do seu alimento e bebida.  Pois é impossível na natureza das coisas, que o homem que tem inclinação por entregar-se ao seu apetite, seja saudável e livre de achaques.  Assim, foi para evitar esse vício e seus efeitos maus, que abracei uma vida sóbria e regrada. Esforcei-me gradualmente por abandonar uma vida desordenada, e adaptar-me a estritas regras temperadas, e assim sucedeu que uma vida sóbria e moderada não era mais desagradável, embora, devido à fraqueza da minha constituição, eu tivesse me amarrado em regras muito estritas relativas à quantidade e qualidade do que comia e bebia. Não achei tarefa fácil, mas não convinha a um homem esmorecer diante de uma tarefa gloriosa e prática, por causa das dificuldades; quanto maiores os obstáculos a serem vencidos, maior a honra e benefício. Nosso beneficente Criador deseja que, como Ele originalmente favoreceu a natureza humana com longevidade, devemos todos aproveitar o pleno benefício das intenções Dele, sabendo que quando um homem passou a idade de setenta anos, ele consegue ficar isento das aspirações sensuais, e governar a si mesmo inteiramente através dos ditames da razão. O vício e a imoralidade então o deixam, e Deus de boa vontade deseja que ele viva até a plena maturidade de seus anos, e ordenou que todos que chegarem a seu termo natural devem terminar seus dias sem doença, mas por mera dissolução, a maneira natural; as rodas da vida parando tranqüilamente, e o homem deixando esse mundo, para entrar na imortalidade, como será meu caso; pois tenho certeza de morrer assim, talvez enquanto canto minhas orações. Tampouco os pensamentos da morte me causam a menor preocupação; e nem qualquer outro pensamento conectado com morte”.

        “Assim, como é bela minha vida! Quão feliz o meu final! Mas ninguém pode ter certeza dessas bênçãos exceto aqueles que aderem às regras da temperança. Essa segurança de vida está alicerçada nas razões boas e certamente naturais, que nunca podem falhar; sendo impossível que aquele que leva uma vida perfeitamente sóbria e temperada, tenha alguma doença, ou morra antes da sua hora.  Antes sim, ele não consegue morrer de má saúde, e sua vida sóbria tem a virtude de remover a causa da doença, e a moléstia não pode ocorrer sem uma causa; causa esta que quando removida, a doença também é removida, e a morte fora de hora e dolorosa é prevenida.

        E não há dúvida, que a temperança no comer e beber, tomando-se apenas o tanto que a natureza realmente requer, sendo assim guiado pela razão, em vez do apetite, tem eficácia para remover toda causa de moléstia; pois como a saúde e doença, vida e morte, dependem na boa e má condição do sangue do homem, e da qualidade de seus humores, uma tal vida como a de que falo purifica o sangue, e corrige todos humores viciosos, tornando tudo perfeito e harmonioso. É verdade, não podemos negar, que o homem deve afinal morrer, por mais cuidadoso que tenha sido consigo mesmo, entretanto eu insisto, sem doença e sem dor; pois no meu caso espero fazer a passagem silenciosa e pacificamente, e minha atual condição me assegura isto, pois embora tenha alcançado esta elevada idade, sou forte e contente, comendo com bom apetite, e dormindo profundamente. Além do mais, todos meus sentidos estão tão bons quanto sempre, e na mais elevada perfeição; minha compreensão clara e inteligente, meu julgamento sensato, minha memória tenaz, meu estado de espírito bom, e minha voz (uma das primeiras coisas que é capaz de nos falhar) se tornou tão forte e sonora, que não posso deixar de cantar alto minhas orações, de manhã e à noite, em vez de sussurrar e murmura-las para mim mesmo como era o costume dantes”. (Uma referência às Comunhões Essênias matinais e vesperais, as quais ele aprendeu a partir das traduções de São Jerônimo).

        “Oh! Como é gloriosa esta minha vida, repleta de todas felicidades que um homem pode gozar deste lado do túmulo! Ela é inteiramente isenta de toda brutalidade sensual, que a idade possibilitou que minha razão banisse; assim não sou perturbado por paixões, e minha mente está calma, e livre de todas perturbações e apreensões duvidosas. Tampouco pode o pensamento da morte encontrar espaço na minha mente, pelo menos não de modo a incomodar-me. E tudo isso se deu, graças à misericórdia de Deus, através do meu cuidadoso hábito de viver.  Quão diferente da vida da maioria dos velhos, cheios de dores e sofrimentos e maus presságios, ao passo que a minha vida é do real prazer, e parece que passo meus dias num perpétuo ciclo de felicidade, como irei demonstrar agora.

        E primeiramente, sirvo ao meu país, e que alegria isso é. Outro grande conforto para mim, é que meu tratado sobre temperança é realmente útil, como muito me asseguram verbalmente, e outros por carta, dizendo que depois de Deus, me devem muito por suas vidas.  Também tenho muita alegria por ser capaz de escrever, e assim sirvo a mim e a outros; e a satisfação que tenho conversando com homens capazes e de compreensão superior é muito grande, sendo que sempre aprendo algo novo. Ora, que conforto isso, que velho como sou, eu seja capaz de, sem fadiga da mente ou corpo, assim estar plenamente ocupado, e estudar os assuntos mais importantes, difíceis e sublimes! (Aqui vemos uma visível influência dos textos de São Jerônimo no monastério de Monte Cassino, concernente à Paz Sétupla dos antigos Essênios).  Devo acrescentar ainda, que nessa idade, pareço desfrutar de duas vidas: uma terrestre, que de fato possuo, a outra celestial, a qual possuo em pensamento; (aqui há forte influência da tradução de São Jerônimo do Evangelho Essênio da Paz, referindo-se aos Reinos da Mãe e Pai Terra) e esse pensamento é verdadeiro desfrute, quando fundamentado sobre coisas que estamos certos de alcançar, e eu, através da infinita bondade do Pai Celestial, tenho certeza da vida eterna. Assim, desfruto da vida terrestre por conseqüência da minha sobriedade e temperança (aqui novamente a influência dos escritos de Jerônimo sobre os Essênios do deserto), e desfruto do celestial, o qual Ele me faz antecipar em pensamento; um pensamento tão vívido, que me fixa inteiramente nesse assunto, cuja fruição tenho por mais do que certa.  E ainda mantenho que, morrer da maneira que espero, não é realmente morte, mas uma passagem para a alma desta vida terrena para uma existência celestial, imortal, e infinitamente perfeita.  E, por conseguinte, desfruto de duas vidas; e o pensamento de terminar essa vida terrena não me dá nenhuma preocupação, pois sei que tenho uma gloriosa e imortal vida diante de mim”.

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