Luigi Cornaro – Comer pouco torna a Vida Longa

        “Tendo assim recuperado minha saúde, comecei a considerar seriamente o poder da temperança: se tinha suficiente eficácia para vencer tais desordens mortificantes como as minhas, também teria poder de preservar-me na saúde e fortificar minha má constituição. Abandonei o uso de tais carnes e vinhos que não me convinham, e escolhia aquelas que pela minha experiência achava que me caíam bem, tomando apenas o tanto que pudesse facilmente digerir, considerando estritamente a quantidade bem como qualidade; e planejava as coisas de maneira a nunca fartar meu estômago com comida ou bebida, e sempre me levantava da mesa com uma disposição de comer e beber mais. Como consequência de aderir a tais métodos, portanto, sempre gozei e ainda gozo (Deus seja louvado) da melhor saúde. É verdade que, além das duas mais importantes regras do comer e beber, que fui muito escrupuloso em observar (ou seja: não tomar mais que aquilo que meu estômago pudesse facilmente digerir, e só usar aquelas coisas que se harmonizavam comigo), evitei cuidadosamente, na medida do possível, todo calor excessivo, frio, fadiga extraordinária, interrupção de meus horários usuais de descanso, ou ficar muito tempo num ar de má qualidade.  Do mesmo modo também fazia tudo que estava ao meu alcance, para evitar aqueles males que não são tão fáceis de remover:  melancolia, ódio, e outras paixões violentas, que parecem ter a mais profunda influência em nossos corpos.  Sou testemunha viva, e assim também muitos que me conhecem, e me viram, de quantas vezes fui exposto a calores e friagens, e mudanças desagradáveis no clima, sem sofrer dano algum.  Aquele que leva uma vida sóbria e regulada, e não comete nenhum excesso em sua dieta, pouco pode sofrer das desordens mentais ou acidentes externos.

        “Concluo, pela longa experiência que tive, que excessos no comer e beber são muitas vezes fatais. Há quatro anos atrás, consenti em aumentar a quantidade da minha comida em duas onças, por meus amigos e parentes terem argumentado por algum tempo, em favor da necessidade de tal aumento, e que a quantidade que eu tomava era pouca demais para alguém de idade tão avançada; contra isso, argumentei que a natureza se contentava com pouco, e que com essa pequena quantidade eu havia me preservado por muitos anos com saúde a atividade; falei que acreditava que num homem de idade avançada, o estômago tornava-se mais fraco, e portanto a tendência deveria ser de diminuir a quantidade de comida em vez de aumenta-la.  Lembrei-lhes ainda, dois provérbios que dizem: Aquele que tem vontade de comer muito, deve comer pouco; comer pouco torna a vida longa, e vivendo muito, ele comerá muito; o outro provérbio era: Aquilo que deixamos após fazer uma refeição substancial, nos faz mais bem do que o que comemos. Mas meus argumentos e provérbios não foram capazes de impedir que me provocassem quanto ao assunto; por isso, para não parecer obstinado, ou que pretendia saber mais que os próprios médicos, mas acima de tudo, para agradar minha família, consenti no aumento acima referido, de maneira que, onde antes eu comia doze onças de sopa e pão, nem mais nem menos, agora aumentava para quatorze onças; e ao passo que antes tomava quatorze onças de líquido, agora aumentava para dezesseis. Esse aumento obteve, dentro de oito dias, um tal efeito sobre mim que, de alegre e ativo, comecei a ficar rabugento e melancólico, de modo que nada me satisfazia.  No décimo segundo dia, fui atacado por violenta dor no lado, que durou vinte e duas horas e foi seguida por uma febre, que continuou trinta e cinco dias sem dar trégua, de forma que todos me viam como sendo já um homem morto; mas, Deus seja louvado, recuperei-me, e tenho certeza que foi a grande regularidade que havia observado por tantos anos, e somente isso, que me salvou do espectro da morte”.

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