Luigi Cornaro

IDÉIAS DE CORNARO

SOBRE UMA VIDA MODERADA E SAUDÁVEL

        “É consenso universal que o costume, com o tempo, se torna uma segunda natureza, forçando os homens a usarem aquilo, quer seja bom ou mau, ao qual foram habituados; de fato, vemos que o hábito, em muitas instâncias, ganha da razão. Isso é tão inegavelmente verdadeiro, que homens virtuosos, ao se manterem na companhia dos malvados, freqüentemente caem no mesmo rumo vicioso de vida. Vendo e considerando isso tudo, decidi escrever sobre o vício da intemperança no comer e beber.

        Ora, embora todos concordem que a intemperança seja progenitora da glutonaria, e que o viver sobriamente seja resultado do autocontrole, no entanto, devido ao poder do costume, a primeira é considerada uma virtude, e a segunda como mesquinha e avara; e assim muitos homens são cegados e confundidos a tal ponto, que chegam à idade de quarenta ou cinqüenta, sobrecarregados com estranhas e dolorosas enfermidades, que os tornam decrépitos e inúteis; ao passo que se tivessem vivido com temperança e moderação, com toda probabilidade seriam saudáveis e fortes, até a idade de oitenta e dali para cima.  Para remediar esse estado das coisas é requisito que os homens vivam de acordo com a simplicidade ditada pela natureza, a qual nos ensina a nos contentarmos com pouco, e nos acostumarmos a comer não mais que o absolutamente necessário para sustentar a vida, lembrando que todo excesso causa doença e leva à morte. Muitos homens jovens e inteligentes reconheceram a necessidade de seguir essa maneira de vida, porque muitos dos seus pais morreram no meio da vida, enquanto eu permaneço tão vigoroso e forte à idade de cento e um anos.

        A pesada sucessão de enfermidades que haviam invadido minha constituição, foram meus motivos para renunciar à intemperança, no sentido de comer e beber com liberdade demais, em que eu era viciado, de modo que, como conseqüência disso, meu estômago ficou desordenado, e sofri muita dor pela cólica e gota, acompanhado por algo que era ainda pior, uma lenta febre quase constante, o estômago geralmente sem funcionar, e uma sede perpétua. Por essas desordens, a maior libertação que eu poderia esperar seria a morte. Portanto, achando-me nessas circunstâncias infelizes entre meus 35 e 40 anos, e tendo tentado tudo que se poderia pensar para aliviar-me, sem resultado, meu médico fez-me compreender que só havia uma forma definitiva para vencer minhas queixas, desde que resolvesse segui-lo, e perseverar pacientemente. Era seguir uma vida estritamente sóbria e regular, o que seria da maior eficácia. Acrescentou ainda, que se não adotasse esse método de vida controlada, dentro de alguns meses eu não receberia nenhum benefício do mesmo, e que em mais alguns teria que me resignar à morte.

        Esses argumentos me impressionaram tanto, que, mortificado como estava e, além disso, diante do pensamento de morrer no auge da vida, embora ao mesmo tempo perpetuamente atormentado por várias doenças, imediatamente resolvi, a fim de evitar tanto as doenças quanto a morte, dedicar-me a um rumo de vida regulado.  Em seguida indaguei dele acerca das regras que devia seguir, e ele respondeu que só deveria tomar alimento, sólido ou líquido, como em geral se prescreve a pessoas doentes; e ambos de forma reduzida.  Essas orientações, para falar a verdade, já tinham me dado antes, mas eu estava por demais impaciente para uma tal moderação, e bebia e comia livremente o que desejava.  Mas, uma vez que eu resolvi viver sobriamente, e conforme os ditames da razão, sentindo que era meu dever como homem faze-lo, entrei com tanta resolução nesse novo rumo de vida, que nada mais desde então foi capaz de desviar-me dele.  A conseqüência foi que, dentro de alguns dias comecei a perceber que tal rumo combinava bem comigo; e seguindo-o, dentro de menos que um ano (talvez algumas pessoas nem acreditem em mim) encontrava-me inteiramente livre de todas minhas queixas”.

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